Joaquín Torres García e o barulho da forma

Joaquín Torres García usou a geometria não para silenciar o mundo, mas para organizá-lo. Um artista que antecipou debates ainda em curso.

Joaquín Torres García e o barulho da forma
Quando a geometria aprende a falar com o mundo.

Forma, cultura e poder antes de virarem discurso.

A abstração geométrica sempre prometeu silêncio. Linhas puras, cores contidas, a tentativa quase moral de expulsar o mundo da tela. Joaquín Torres García fez o oposto. Usou quadrados, triângulos e retas não para calar o cotidiano, mas para organizá-lo.

O artista uruguaio construiu um alfabeto próprio. Não de letras, mas de símbolos. Casas, barcos, animais, corpos humanos — tudo reduzido a uma gramática geométrica que, em vez de afastar o espectador, o convoca. Há ruído ali. Há cidade. Há vida.

Essa tensão entre forma e experiência atravessa a exposição que ocupa agora o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, reunindo cerca de 500 itens entre pinturas, desenhos, maquetes, manuscritos e livros raros. Mais do que uma retrospectiva, a mostra funciona como um mapa mental: revela como Torres García absorveu as vanguardas europeias do início do século XX sem jamais se submeter a elas.

Quatro figuras e charrete em cinco tons, de Joaquín Torres García - Coleção Paulo Kuczynski Galeria de Arte

Em Paris, onde conviveu com Piet Mondrian e fundou o grupo Cercle et Carré, o uruguaio entrou em contato direto com o rigor da abstração geométrica. Mas algo ali não lhe bastava. Onde Mondrian via ordem, Torres García buscava sentido. Onde Malevich defendia o esvaziamento simbólico, ele insistia em expressar o humano.

Sua resposta foi o que chamou de universalismo construtivo: uma geometria anterior à palavra, anterior à ideologia, capaz de dialogar com culturas africanas, pré-colombianas e mediterrâneas ao mesmo tempo. Não se tratava de folclore, mas de arquitetura simbólica. Um sistema visual que pudesse ser entendido em qualquer latitude — justamente porque não negava suas origens.

Rua e café, de Joaquín Torres García - Coleção Airton Queiroz

Décadas antes de o termo “decolonial” ganhar circulação acadêmica, Torres García já invertia mapas. Literalmente. Em América Invertida (1943), o artista vira o continente de cabeça para baixo e desloca o eixo do mundo. O gesto não é panfletário. É epistemológico. Questiona quem define centro e periferia, norte e sul, referência e margem.

Na exposição, essa imagem reaparece como escultura suspensa, pairando sobre o público. Não aponta um caminho político específico, mas afirma algo mais radical: a liberdade de reorganizar o mundo a partir de outros pontos de vista.

Essa recusa à submissão atravessa toda a sua trajetória. Torres García foi clássico em Barcelona, operário em Nova York — onde fabricou brinquedos desmontáveis para sobreviver — e mestre em Montevidéu, ao fundar a Escola do Sul. Viveu entre centros e bordas, entre tradição e invenção. Sempre em trânsito.

Talvez por isso sua obra dialogue tão diretamente com o presente. A madeira crua de alguns trabalhos antecipa a arte povera. A centralidade latino-americana antecipa debates contemporâneos sobre identidade e poder simbólico. Nada ali parece datado. Ao contrário: soa estranhamente atual.

A exposição no CCBB não tenta canonizá-lo em silêncio reverencial. Ao incluir artistas como Cildo Meireles, Anna Bella Geiger, Emmanuel Nassar e Hélio Oiticica, ela transforma o encontro em conversa. Uma festa, como define o curador Saulo di Tarso — não para celebrar um passado encerrado, mas para reconhecer um pensamento ainda em movimento.

Torres García não queria uma arte limpa. Queria uma arte habitável. E talvez seja isso que sua obra continue a nos dizer: que forma, quando bem usada, não organiza apenas o espaço — organiza o mundo.

Joaquín Torres García - 150 anos
De quarta a segunda, das 9h às 20h. Fechado às terças. Até 9 de março. - CCBB São Paulo - Rua Álvares Penteado, 112, Centro - Entrada gratuita