O desejo em 2026: como o marketing redefine o consumo de alto padrão
O desejo em 2026 será silencioso, emocional e estratégico. O consumo como linguagem cultural.
MERCADO DO DESEJO | O marketing global e o consumo de alto padrão
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Durante décadas, o luxo foi definido por excesso: mais visibilidade, mais presença, mais símbolos. Em 2026, esse paradigma se inverte. O desejo deixa de ser performático e passa a ser experiencial, emocional e silenciosamente estratégico.
Essa não é uma intuição estética — é um movimento estrutural observado nos principais mercados globais de consumo e comunicação. Segundo o Pronóstico de Marketing 2026 da WGSN, o setor entra em um ponto de inflexão: o que move decisões de compra não é mais a promessa aspiracional clássica, mas a capacidade das marcas de gerar sentido, emoção e pertencimento em um mundo saturado de estímulos.
Para o leitor de A Rota Journal, a pergunta relevante não é “qual tendência vem aí?”, mas outra, mais estratégica: como o desejo está sendo reprogramado — e quem saberá compreendê-lo antes?
O novo luxo começa onde o marketing deixa de gritar
O Pronóstico de marketing 2026 da WGSN é claro ao apontar um dado desconfortável para marcas tradicionais: 49% dos consumidores evitam marcas que anunciam com frequência excessiva. A saturação visual e narrativa gerou um efeito colateral inesperado — o silêncio virou valor.
No universo do alto padrão, isso se traduz em três movimentos centrais:
• Redução consciente da exposição.
• Comunicação mais editorial do que publicitária.
• Ênfase em experiências de alto contato emocional, não em volume de alcance.
O desejo passa a ser construído pela ausência calculada, não pela repetição.
Para o mercado brasileiro de alto padrão — historicamente mais ligado à ostentação — isso representa uma mudança profunda de código.
Consumo como leitura cultural. Não como vitrine.
A WGSN aponta que 2026 será marcado pela chamada cultura da convergência: consumidores deixam de se definir por uma identidade única (classe, idade, estilo) e passam a operar por interseções — estética + valores + experiência + contexto emocional.
No Mercado do Desejo, isso significa que objetos, marcas e serviços deixam de ser comprados pelo que são, mas pelo que permitem sentir.
Exemplos claros desse movimento:
• Arquitetura que vende silêncio e não metragem.
• Hotéis que vendem tempo recuperado, não apenas conforto.
• Marcas artesanais com preço de joia, não pela raridade material, mas pelo que representa.
O luxo, aqui, não é produto. É mediação emocional.
Storytelling: entre o ensaio e o fragmento

Um dos pontos mais sofisticados do relatório é a noção de storytelling dual: narrativas longas, ensaísticas e de alto contato coexistindo com conteúdos fragmentados, caóticos e rápidos.
Mas atenção: isso não significa democratização do discurso. Pelo contrário.
Nos mercados de alto padrão:
• O conteúdo “caótico” é usado como ruído periférico.
• O conteúdo “amigável” (filmes, textos longos, newsletters) vira filtro de pertencimento.
Ou seja: quem tem tempo para ler, pertence.
Newsletters, artigos longos e textos interpretativos voltam a ser instrumentos centrais de construção de desejo — exatamente o território onde A Rota Journal se posiciona.
Emoção como ativo econômico

Talvez o dado mais revelador do relatório seja este:
As emoções são o principal impulsionador do comportamento de compra — mais do que necessidade ou utilidade.
Em 2026, marcas relevantes serão aquelas capazes de criar “momentos emotivos” — microexperiências que alteram o estado emocional do indivíduo, mesmo que brevemente.
No universo de alto padrão, isso se traduz em:
• Marketing sensorial (som, textura, ritmo, silêncio).
• Experiências que não pedem conversão imediata.
• Construção de memória, não de call to action.
É por isso que vemos o crescimento de:
• Listening rooms.
• Experiências imersivas sem venda explícita.
• Conteúdos editoriais que não “explicam tudo”.
O desejo amadureceu. Ele não precisa mais ser convencido — apenas ativado.
O que isso revela sobre o Brasil de alto padrão
Quando lemos esse movimento global a partir do Brasil, surge um ponto crucial:
o país ainda consome símbolos de status do passado, enquanto o desejo global já opera em outra chave.
Isso cria uma oportunidade clara:
• Para marcas que saibam traduzir sofisticação emocional.
• Para projetos editoriais que ensinem a ler cultura como vantagem competitiva.
• Para consumidores que desejam se mover antes do consenso.
O verdadeiro luxo, hoje, é antecipação informada.
