O que os investidores estão dizendo sobre o Brasil — mesmo quando não percebem

O consenso dos investidores institucionais revela mais do que preferências financeiras: expõe as crenças, os medos e o futuro que o capital escolhe financiar no Brasil.

O que os investidores estão dizendo sobre o Brasil — mesmo quando não percebem
O mapa quase invisível das decisões financeiras no Brasil.

Menos promessa, mais execução: a lógica do capital hoje.

Existem momentos em que o mercado fala mais sobre cultura do que sobre números. A pesquisa mais recente do Itaú BBA com 127 investidores institucionais, realizada entre novembro e dezembro deste ano, é um desses casos. Não porque apresente rupturas, mas porque confirma, com precisão quase desconfortável, quais narrativas seguem dominantes no imaginário econômico do Brasil.

O perfil dos entrevistados já é por si só, revelador: 78% são gestores brasileiros — concentrados sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro — enquanto o restante vem do capital internacional. O Brasil que emerge dessa escuta é um Brasil observado de dentro para fora, mas validado por olhares externos.

Nubank, Axia Energia (ex-Eletrobras), BTG Pactual, Itaú e Localiza formam hoje o núcleo principal das preferências institucionais. À primeira vista, setores distintos.

Na prática, uma mesma lógica: escala, previsibilidade e controle de infraestrutura — financeira, energética ou logística. O investidor institucional não está comprando disrupção; está comprando execução.

O Nubank aparece como símbolo dessa ambiguidade. É o top pick de 52,2% dos investidores internacionais e lidera as preferências no Rio de Janeiro, onde 24% dos gestores o apontam como favorito. Em São Paulo, no entanto, o banco digital perde força: apenas 11,3% das gestoras paulistas o colocam no topo. O dado expõe uma fragmentaçã menos financeira e mais cultural. Para parte do mercado, o Nubank ainda encarna a modernização do sistema bancário brasileiro; para outra, já é uma narrativa amadurecida, cujo risco agora é parecer previsível demais.

São Paulo segue fiel ao seu próprio reflexo. Entre as gestoras paulistas, BTG Pactual lidera com 26,8% das indicações, seguido por Axia (23,9%) e Itaú (22,5%). Não há idealismo aqui. Há preferência por instituições com densidade técnica, proximidade com o poder decisório e capacidade comprovada de atravessar ciclos econômicos sem ruído excessivo.

No Rio, a lógica muda. A Equatorial permanece como ação favorita de 28% das gestoras cariocas — embora receba apenas 7% das indicações em São Paulo e 4,3% entre investidores internacionais. O dado é menos sobre a empresa e mais sobre o território: infraestrutura energética segue sendo ativo simbólico e estratégico em um mercado mais sensível ao concreto do que ao financeiro abstrato.

Outro movimento relevante está na renovação do ranking. Localiza, Bradesco, Mercado Livre e Cyrela entram entre as dez ações preferidas, substituindo nomes ligados a saneamento, energia regional e saúde. É uma troca silenciosa, mas significativa: sai a defesa, entra a eficiência operacional ligada à mobilidade, consumo estruturado e urbanização.

Quando questionados sobre retorno esperado nos próximos seis meses, o mercado é ainda mais direto. A Localiza lidera com 25% das respostas, seguida por Nubank (15%) e Axia (13%). A mensagem é clara: o capital está menos interessado em promessas macroeconômicas e mais atento à capacidade de entrega no curto prazo. Retorno passa a ser visto como resultado de gestão disciplinada — não de cenário.

A leitura setorial reforça esse diagnóstico. Utilities lideram as preferências, com 58,3% dos investidores se declarando overweight, seguidas por grandes bancos (49,6%). A construção civil sobe da quarta para a terceira posição, impulsionada sobretudo pelas respostas de São Paulo — um sinal discreto, mas importante, de retomada do imaginário urbano. Na outra ponta, óleo e gás, mineração, educação e telecom permanecem underweight, indicando ceticismo estrutural, não conjuntural.

Nada disso é exatamente novo. Mas, quando organizados, esses dados desenham uma rota inequívoca: o capital institucional no Brasil segue onde há controle, previsibilidade e baixa surpresa. Em um país historicamente movido pelo improviso, essa preferência diz muito sobre o tipo de futuro que está sendo financiado — e sobre quais narrativas, silenciosamente, ficaram para trás.

Infográfico A Rota Journal - Capital Institucional no Brasil - Fonte: Pesquisa com investidores institucionais — Itaú BBA (nov/dez 2025)