Quando o móvel deixa de servir e começa a significar
No Atoriē, o mobiliário deixa de servir apenas ao uso e passa a carregar processo, autoria e tempo — um novo território do desejo.
Quando o objeto passa a carregar intenção.
Há um momento em que o objeto doméstico deixa de responder à pergunta “para que serve?” e passa a sustentar outra, mais rara: “o que ele diz?”. É nesse deslocamento — do uso para o sentido — que nasce o Atoriē, projeto que transforma o mobiliário em território de pesquisa artística, tempo longo e desejo informado.
Idealizado por Camila Tariki, o Atoriē não propõe peças decorativas com verniz conceitual. O que está em jogo é mais profundo: convidar artistas a pensar o espaço doméstico como extensão de sua prática, sem hierarquizar arte e função. O resultado não são adaptações de obras existentes, mas objetos inéditos, concebidos desde o início para habitar casas — e não apenas discursos.

Artur Lescher, Paula Juchem, Paulo Nimer Pjota e Tiago Mestre partem de universos visuais e materiais distintos, mas compartilham um ponto em comum: tratam o mobiliário como linguagem. As peças nascem de processos lentos, feitos de conversa, erro, ajuste e insistência. Nada responde à urgência do mercado. Ao contrário, o tempo é tratado como matéria-prima.
Esse ritmo desacelerado se reflete nas escolhas produtivas. Oficinas, artesãos e fornecedores não entram como etapa final, mas como parte criativa do percurso. Técnicas tradicionais, muitas vezes associadas à escultura, convivem com tecnologias contemporâneas de precisão. O fazer não é terceirizado — é incorporado.


Imagem esq.: Artur Lescher, Paula Juchem, Paulo Nimer Pjota e Tiago Mestre; Imagem dir.: Banco Azul e mesa Tropicália, design Paula Juchem para Atoriē — Foto: Ruy Teixeira/Divulgação
Há também uma recusa clara à ideia de tendência. As peças não pretendem “atualizar” interiores, mas atravessá-los. São objetos que aceitam envelhecer, mudar de contexto, dialogar com outras arquiteturas e outros hábitos. Quando chegam a uma casa, deixam de ser projeto e passam a ser relação.

No Atoriē, até os sistemas técnicos seguem essa lógica. Luminárias, por exemplo, não recebem soluções prontas: a tecnologia nasce junto com a forma, integrada à intenção do objeto. Não há separação entre engenharia e poética.
Esse tipo de iniciativa revela algo maior sobre o mercado contemporâneo do desejo. Em um momento de saturação visual e produção acelerada, cresce o valor de objetos que carregam processo, autoria e silêncio. O luxo aqui não está no acabamento ostensivo, mas na densidade invisível do que foi pensado, testado e amadurecido.
O Atoriē não vende apenas mobiliário. Ele oferece uma outra relação com o espaço doméstico — mais reflexiva, menos performática. Um convite a viver com menos objetos, mas com mais significado. E talvez seja justamente isso que define o novo desejo: não possuir mais, mas escolher melhor.